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Foco Ambiental Sustentável - Mas a tempestade de areia não é coisa de deserto? Destaque

- Postado, Sábado, 02 Outubro 2021 20:41 Por

Mas a tempestade de areia não é coisa de deserto?

Olá pessoal, hoje nossa coluna tem uma participação especial do meu amigo e Geográfico 
Gustavo P. Marichal

Algo que as crianças têm, mas os adultos acabam perdendo, é a curiosidade a respeito do mundo simples ao nosso redor. Na semana passada, uma tempestade de areia atingiu o norte do estado de São Paulo (região de Franca e Ribeirão Preto), além do interior mineiro.


Mesmo para os que são muito jovens, isso deveria chamar atenção, afinal, não é comum termos tempestades de areia no interior de São Paulo. Quer dizer, já tivemos, esta é uma região que no passado foi um deserto, mas isso deixou de ser assim há alguns milhões de anos. Pra quem não sabe, havia um deserto nesta região quando a América do Sul ainda estava ligada à África, antes dos Andes começarem a surgir.. enfim, há muito tempo!


E aquela tempestade de areia, prenunciando a chuva que chegaria na sequência, ainda assusta, ainda confunde. É ou não é natural?
Talvez seja interessante observar como o ser humano tem transformado o seu entorno. Há quem diga que o Cerrado tem recuperação, mas há quem diga que o Cerrado está extinto, uma vez que as plantas endêmicas dependem de certos animais para que sementes possam germinar, ao passo que esses animais já não estão lá.
Verdade seja dita: não é só o Cerrado que tem problemas. As queimadas na Amazônia, independente da quantidade de focos, atingiram um patamar em que se coloca em xeque a própria manutenção da vida naquela região.


O Brasil possui condições atmosféricas que permitem que as chuvas provenientes da Amazônia atinjam nossa região, o Sudeste, e isso acontece há muito tempo. Não só a nossa região, essa chuva chega até a Argentina. Aparentemente os ventos manterão seus sentidos de deslocamento, mas temos um problema com o rebaixamento dos lençóis freáticos do Cerrado: as nascentes estão diminuindo, logo, os rios estão perdendo volume, ao mesmo tempo em que a umidade diminui, o que reduz as precipitações.
Parece que as tempestades de areia são sintoma, não o problema em si. Qual seria, então? Não conseguimos ainda desenvolver um jeito de ganhar dinheiro com os biomas em pé, ao invés de cortados. As grandes fazendas, que produzem commodities, e não comida, estão preocupadas em manter seus números, ainda que o desmatamento de uma fazenda próxima possa levar a uma queda de produtividade entre elas, de uma forma geral, já que alteram-se as condições climáticas.
É hora de começarmos a debater, de verdade, um projeto que salve os biomas, de forma que nós, urbanitas, também sejamos salvos. Quem dá o primeiro passo?
 

Bacharel e Licenciado em Geografia - USP.
Professor da rede pública e particular desde 2004.